O Projeto

A Kunsthalle Lissabon é um projecto curatorial que parte da ideia de Kunsthalle não apenas como um local, mas sobretudo como uma instituição caracterizada pela realização de exposições temporárias, para existir como um embuste. Mais especificamente, ainda que a língua que utiliza na sua denominação seja o alemão, a Kunsthalle Lissabon não se encontra localizada num país cuja língua seja essa; a sua estrutura de funcionamento, logística, equipa, recursos financeiros, etc, dificilmente cumprirão as expectativas de uma Kunsthalle tradicional, tal como são entendidas actualmente. Deste ponto de vista, a Kunsthalle Lissabon é realmente um embuste.

No entanto, a simples assunção da Kunsthalle Lissabon como um embuste constitui em si mesma um embuste. Esta noção do falso embuste pretende dar conta não só da impossibilidade de estabelecer e manter uma posição exterior (estritamente objectiva e crítica) às dinâmicas institucionais, como também do desejo simultâneo de habitar e problematizar a partir do interior essas mesmas condições (assumindo conscientemente todas as contradições que tal acto implica). Desejamos, assim, posicionar a Kunsthalle Lissabon como uma alternativa intencional aos modelos tradicionais da prática institucional. Ser uma desajustada num contexto de conformidade neo-liberal é uma identidade que pretendemos desenvolver como modo de funcionamento. Deste ponto de vista, a Kunsthalle Lissabon é tudo menos um embuste.

Assim, partindo da noção histórica daquilo que constitui, não apenas a Kunsthalle, mas toda uma série de espaços e plataformas filiados à mesma tipologia institucional, ainda que não adoptando essa nomenclatura, e localizando-nos num contexto actual de crescente precariedade, vísivel no desagregamento da esfera pública, historicamente burguesa, e legitimadora da acção institucional, mas visível também também na severidade da actual crise económica global, as acções da Kunsthalle Lissabon podem ser definidas por três eixos principais:

-Uma proximidade ideológica resultante de uma leitura muito pessoal do que foi definido como a terceira vaga da crítica institucional e, consequentemente, do conceito do novo institucionalismo, como foi desenvolvido recentemente em pequenas e médias instituições dedicadas à arte contemporânea, no continente europeu.

-Uma ética e estética DIY (Do-It-Yourself), resultante do actual clima económico e que, apesar de causar sérios problemas ao desenvolvimento e consequente concretização de um simples programa curatorial, permite fluidez, agilidade e rapidez de acção e, sobretudo, autonomia e independência duma abordagem mais comercial, característica de um sistema marcadamente tradicional, e centrado na produção e distribuição de objectos e rituais de consumo.

-Uma prática de estreita colaboração com os artistas, permitindo não apenas o desenvolvimento de projectos que dialoguem com as preocupações curatoriais que estiveram na origem dos convites, mas também, e sobretudo, que correspondam aos desejos e expectativas dos artistas relativamente à natureza dessa colaboração. Tal proximidade permite assim o desenvolvimento de uma voz activa no meio artístico local, prestando, nesse processo, uma atenção cuidada às necessidade de uma audiência específica e da própria comunidade artística em que a Kunsthalle Lissabon se insere.

Tendo estes três eixos (ideologia, ética/estética e prática) como parâmetros de actuação, a Kunsthalle Lissabon funciona numa lógica de ciclos anuais, através dos quais os projectos curatoriais são desenvolvidos e os pressupostos que os enformam explicitados. Desta forma, cada ciclo não funciona de forma dissemelhante a uma exposição colectiva, mas ao contrário desta, que é definida pelo espaço que ocupa, o ciclo anual é definido pelo período de tempo em que decorre. Cada ciclo é assim um projecto curatorial expositivo de carácter duracional/temporal, no qual os artistas são convidados para, em conjunto com os curadores, reflectirem e trabalharem de forma mais prolongada e reflexiva sobre um tópico definido a priori. A noção de processo torna-se então central na constituição do discurso curatorial e, consequentemente, de cada ciclo, partindo, cada um, de um conceito aberto e intencionalmente vago que é gradualmente articulado, debatido, interrogado e criticado à medida que as propostas dos artistas convidados são desenvolvidas e apresentadas. O público é parte integrante deste processo e convidado a tomar parte na articulação e constituição do discurso curatorial. O título de cada ciclo constitui-se como o momento final do processo que, em vez de abrir, encerra e conclui, condensado em si próprio todo o trabalho desenvolvido durante o ano.

Staff

Luís Silva, Co-diretor
l.silva@kunsthalle-lissabon.org

João Mourão, Co-diretor
j.mourao@kunsthalle-lissabon.org

Íñigo Gómez Eguíluz, Assistente curatorial
i.gomez@kunsthalle-lissabon.org